quarta-feira, 19 de abril de 2017

Uma valsa com o tempo

Waltz - Leonid Afremov
Estou sentada na mesa do meu escritório, pela janela à minha frente avisto uma árvore frondosa, com os seus galhos remexendo para lá e para cá, dançando no rítimo do vento frio de uma tarde ensolarada de outono.

Tento escrever o que foi a experiência que eu e mais 30 pessoas vivemos nestes últimos três dias ... num encontro, intenso, de conversas sobre a morte. O barulho ensurdecedor das palavras dentro de mim se depara com a barreira do silêncio que faço. Não sou capaz de colocar os pensamentos em palavras. Volto a olhar a janela.

Da dança entre os galhos e o vento, observo uma folha que cai, ainda existe nela uma dança e ela, inteiramente presente no seu processo de morte baila, alegremente, até tocar o chão.

Meu pensamento se desloca, rapidamente, para o tempo, para as
histórias e as pequenas e grandes mortes do dia-a-dia. E na música frenética dos meus pensamentos resolvo fechar os meus olhos por alguns instantes, na esperança que eles apaguem a luz da minha mente e coloque os pensamentos para dormir.

Me sinto como um grande salão e em uma inspiração profunda as janelas se abrem, uma brisa suave entra, a atmosfera se serena, já não existe barulho.
Um dançarino adentra ao salão. Numa vitrola antiga coloca um vinil. O tocar da agulha no disco preto faz ecoar um som que me traz a memória as boas músicas da infância...é uma valsa. Com passos calmos e firmes vejo-o caminhar em minha direção e, ao mesmo tempo que sua mão direita me convida para a dança, ouço o iniciar da cantoria “um dia ele chegou tão diferente, do seu jeito de sempre chegar...”

Não apresenta sua face, mas quando a sua mão esquerda se acomoda na minha cintura, delicadamente sussura seu nome em meu ouvido: Eu sou o tempo.

Eu e a música paralisamos sincronicamente. Nos olhamos. Ele dum jeito muito mais quente do que sempre costumava olhar. Sustentamos um o olhar do outro, nos reconhecíamos. Eu n’Ele, Ele, em mim. Um avalanche de sentimendos me inundou, ele apertou a minha mão um pouco mais forte. Primeiro pedi licença ao medo e não maldisse a vida tanto quanto era meu jeito de sempre falar e fechei os olhos.

Dentro de mim começei a descer as escadas das minhas dúvidas, da raiva, da tristeza, dos meus julgamentos muitas vezes cruéis sobre mim e sobre os outros...meu coração dispara. Estou prestes a reencontrar algo precisoso. Abro uma porta velha com fechaduras enferrujadas. Olho e me vejo, aquela eu de quem tanto gosto e não a deixo só num canto; pra seu grande espanto convido-a para rodar.

Então ela se fez bonita como há muito tempo não queria ousar, com seu vestido decotado cheirando a guardado de tanto esperar subimos as escadas correndo. Quando abro os olhos é através dela que o vejo de novo e tão rápido quando um pensamento passo ser uma observadora de mim mesma. Daquela cena. Daquela eu de quem tanto gosto. Sorrio.

“Depois os dois deram-se os braços como há muito tempo não se usava dar, e cheios de ternura e graça foram para a praça e começaram a se abraçar. E ali dançaram tanta dança que a vizinhança toda despertou, e foi tanta felicidade que toda a cidade se iluminou. E foram tantos beijos loucos
tantos gritos roucos como não se ouvia mais. Que o mundo compreendeu...”

Como uma linda aquarela a cena começa a se dissipar. Inspiro profundamente e abro os olhos. Olho pela janela e lá fora já é noite, mas é cheiro de dia raiando que respiro. O dia amanheceu em paz.

*inpirado na Valsinha de Chico Buarque de Holanda.

segunda-feira, 12 de dezembro de 2016

O gatinho da minha rua e seu Maha Savasana

O oriente penetrou em mim quando eu ainda era muito jovem; parecia que tudo o que vinha de lá produzia um efeito quase magnético sobre minha atenção e sobre o meu coração.

Sempre encontrei pessoas, livros e músicas que, constantemente, me faziam o convite a olhar para o oriente. E os convites eram tão diversos, quanto a diversidade que existe por lá. Mas, foi quando passei a habitar terras paulistanas que fui convidada a experimentar o Yoga. O nosso primeiro encontro tinha pitadas de vigor e juventude, era o corpo que encenava o papel principal da história.

Aos poucos me interessei pela multiplicidade e abrangência - quase infinita - dessa palavrinha de quatro letras e descobri, que o corpo encena na filosofia do Yoga, talvez, o mais insignificante dos papéis.

'É preciso perceber, sentir e permanecer em posturas de Yoga onde a cabeça e o coração estejam no mesmo nível" dizia e repetia (como um Mantra) a Raquel durante um curso que fiz, de Yoga Restaurativo. Trocando em miúdos e sendo bem gerenalista, é um linha que tem como premissa posturas passivas, de conforto extremo e que proporcionem ao aluno renovação e regeneração em níveis profundos de relaxamento.

Ufa! Tudo que eu precisava neste final de ano.

A principal postura do Yoga restaurativo é o Savasana (Sav - Cadáver / Asana - Sentar).  O workshop durou uma noite e dois dias e o convite era, exatamente o que você deve estar pensando agora, experimentar a restauração profunda que a postura do cadáver {Savasana} causa no corpo, na mente e no coração. Foi intenso. Pronfundo. Íntimo.

Finalizei o curso determinada a fazer Savasana todos os dias.

(fim do primeiro ato)

Há pouco mais de seis meses dois gatos se apaixonaram. Ela, cinza com olhos de um verde quase amarelo. Ele, cor de caramelo, jeito despojado e olhos marotos.

Do amor deles sugiram 3 gatinhos. Não sabemos - ainda - quantos são machos ou fêmeas mas, a Clara, acabou batizando de: Clara um, Clara dois e Clara caçula.

Um era pretinho de olhos verdes quase amarelos como a sua mãe. Os outros dois eram branquinhos e tinham as extremidades cinza, com sua mãe e os olhos azuis como o céu e marotos como os do seu pai.

Eles nasceram poucos metros distantes da porta da nossa casa e, alegram todas as nossas manhãs, quando veem o carro saindo da rua e se escondem nos dois grandes canos da casa do vizinho, o que leva as meninas a gragalhadas imensas e mãos apertando as bochechas em gesto de fofura extrema.

Qualquer hora do dia que saíssemos de casa encontrávamos aqueles 3 gatinhos saltitantes e sapecas rolando na relva fresca e úmida da nossa rua de paralelepípedos. Por quase dois meses acompanhamos o crescimento deles e as eternas brincadeiras de escode-esconde que eles operavam todas as vezes que saíamos de casa.

O que era graça para as meninas, para nós adultos cheios de medos, era motivo de preocupação. Será que ninguém vai adotar esses gatinhos? Depois descobrimos que isso nunca seria possível por que eles são filhos dos gatos de um dos nossos vizinhos da rua de cima. Será que não dá para ele colocar esses gatinhos dentro de casa? Algum dia ainda vai acontecer uma tragédia!

(fim do segundo ato)

Segunda-feira, dia seguinte aos dois dias e uma noite que me regenerei no curso de Yogo restaurativo, que havia me proporcionado uma das melhores noites de sono dos últimos tempos, acordo feliz e saltitante.

7:15 da manhã. Saio para levar a Clara na escola, vejo um gatinho - curiosamente sem sua mãe ou seus irmãos como de costume - deitado na rua, dormindo serenamente, restaurativamente, com sua cabeça entre as patinhas, na mais gostosa e confortável das posições.

Não sei por que mas, desta vez não chamo a atenção da Cla para vê-lo, senti um frio quando o vi de longe ... passo com o carro perto dele e ele não se mexe. Meu corpo gela, fico triste.

Ligo para o meu marido e pergunto se ele o tinha visto. Ele diz que sim e setencia: deve ter morrido de frio. Apesar de já ser primavera, estamos enfrentando tempos frios na terra da garoa.

Deixo a Clara na escola e volto, preciso cuidar disso antes que as meninas voltem da escola. Era a única coisa que pensava. Entro em casa e pego dois sacos plásticos pequenos, um grande, e um saco de algodão bem macio...subo a ladeira de paralelepípedos da minha rua ainda com a vegetação toda coberta com pequenas gotas de chuva e um cheiro maravilhoso de terra molhada.

Agacho na frente do gatinho, seus olhos azuis ainda estavam um pouco entre abertos. Parecia relaxado, feliz. Um verdadeiro Maha Savasana.

Tenho um Déjà vu. Quando a minha mãe se foi não tive coragem de vê-la morta, não quis tocar o seu corpo inerte, não tive coragem.

Agora estávamos lá, eu e o gatinho - nem imagino qual das "Claras" ele possa ser, não quero pensar nisso - somos só nós dois e, ninguém mais pode fazer isso por mim. Coloco os dois sacos pequenos nas minhas mãos, aliso delicadamente sua pequena cabeça, é verdade, ele se foi.

Coloco as minhas mãos em prece, faço uma oração. Peço licença para pegar neste corpinho que um dia uma alma de gato habitou. Pego aquele corpo pequenino, frio e pesado e coloco delicadamente dentro do saco de algodão macio, depois no saco plástico e me despeço.

Na rua não passa uma viva-alma sequer, só tem vento, canto de pássaro e cheiro de terra molhada. Sinto amor, compaixão, por mim e por ele.

Meu coração está acelerado...entro na minha casa, agarro a Mavis - a nossa gata - dou um monte de beijos nela e agradeço, por tudo.

"Não existem vidas comuns, apenas olhares domesticados" Eliane Brum

(Fim)

*Não consegui achar o autor dessa foto maravilhosa se um gatinho dormindo no colo de um Budha. Foto captada Printerest, se você souber me avisa que coloco os créditos.

quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

Sobre a Morte, o Natal e a Gratidão


Hoje é o dia que se inicia o calendário do Advento, faltam 24 dias para o Natal. Desde 2014 os Natais para mim são diferentes, as emoções felicidade, tristeza, alegria e gratidão dançam abraçadas dentro do meu corpo.

Resolvi fazer deste primeiro dia de Advento um dia de gratidão às forças supremas do Universo. Este texto é a materialização disso. Ele nasceu durante o lindo curso Como se encontrar na escrita, da Ana Holanda, pela The School of Life.

Ana, você e grupo deste curso morarão no meu coração, para sempre! Obrigada!

******************************************************************

Era julho de 2013, um domingo frio em São Paulo e eu e Rudolf, meu companheiro nos últimos 12 anos, resolvemos deixar nossas filhas Gabriela e Ana Clara, na época com três e um ano sob os cuidados da avó paterna para irmos a um sermão da The School of Life sobre o arrependimento e a morte.

Naquele domingo choramos e agradeçemos. Saímos de lá, duas horas depois, em completo silêncio, pelos quase 12 kilômetros que separam a Rua Augusta da nossa casa. Para mim, era a primeira vez que o assunto morte era ouvido e sentido numa situação onde ela, a morte, não estava dolorosamente presente, de corpo e alma. Mal sabia que iria visitar e relembrar essas duas horas, em breve.

Alguns meses se passaram e, tratei de começar, antes do fim, a colocar uma das minhas resoluções de fim de ano em andamento e, mais uma vez, vi-me numa situação e num lugar onde o convite a pensar sobre a morte era feito. 23, 26 e 27 de dezembro, Monja Coen, o Budismo em três lições. Terceiro ato: sobre o nada e o vazio, os movimentos da vida. Só conseguia sentir, as palavras me faltavam e o silêncio me dominou novamente.

24 de Dezembro de 2014. São Paulo acordou com o típico dia brilhante de verão. Quente, o sol deixava as árvores e as flores ainda mais bonitas e coloridas. Eu amo Natal, sempre amei e este seria especial: o primeiro na nossa casa! As meninas estavam elétricas, eu e Rudolf não víamos a hora da noite chegar, os preparativos estavam a mil e a felicidade reinava, absoluta.

Estou sentada no chão da cozinha terminando os últimos arranjos de flores, dali a pouco, em alguns minutos, a família aqui de São Paulo começaria a chegar. O telefone toca, era minha irmã de Salvador, atendo com a mais eufórica das vozes. Ela, séria, taciturna: a mamãe passou mal, estamos no hospital. Meu corpo gela, tenho a sensação de que ele pressente algo. Ela conta os detalhes do que aconteceu, diz que a mamãe esta sendo atendida e que ligaria quando tivesse alguma novidade.
Desligo o telefone e sinto como se o tempo tivesse congelado e percebo que os meus olhos já não veem as árvores e as flores com o colorido de antes. Atravesso o corredor da minha casa e aviso a Rudolf. Ele tenta me acalmar mas parece que a minha alma já sabia o que estava por vir.

Subo para o meu quarto e, diante do meu altar, eu rezo. Peço pela minha mãe e por mim. Meu coração acelera e depois dos longos minutos que passei em oração, resolvo tomar um banho para acalmar a mente. Em seguida o telefone toca. Olho no visor, é a minha irmã. Por alguns minutos eu penso que não quero atender aquela ligação, ela tinha um cheiro diferente.

“Os médicos disseram que ela não resistiu”.

Meu corpo gela. Não sinto o chão sob os meus pés. Choro. Não acredito e pergunto se aquilo realmente estava acontecendo, se era verdade ... Para todas as perguntas de negação, encontrava o sim como resposta.

Algumas horas mais tarde já estava no avião a caminho de Salvador. O silêncio me dominava, sentia-me anestesiada por dentro. E assim passei por todos os rituais de despedida. Como filha mais velha recebi a nomeação – digo nomeação porque não pedi nem me voluntariei – de dizer algumas palavras no momento final de despedida. Sentia calafrios, meu coração estar sendo esmagado. O barulho dentro de mim era imenso. Mas da pele para fora, as pessoas só me viam entre lágrimas e soluços recitar o Soneto de fidelidade, de Vinícius de Moraes, a única coisa que consegui dizer naquele momento, não conseguia falar de mim e do que eu sentia com as minhas própias palavras.
E assim, quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama

Eu possa me dizer do amor (que tive):
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure.


Entre os abraços e beijos que recebi no final, ouvi de alguém: “Agora é vida que segue”. E ela, de fato, segue. O meu corpo acordava da anestesia a cada dia que passava. Aos poucos já conseguia falar com os amigos sobre o que sentia e foi numa dessas conversas, daquelas em que eu parecia o narrador de uma peça enquanto falava, que me dei conta do último ano e como, de certa forma, aquelas escolhas que eu fiz de ouvir sobre a morte foram uma homeopatia em doses antecipadas.
Olhei pela janela do restaurante que almoçávamos, ainda era verão. O Sol, brilhante e quente, deixava as árvores e as flores ainda mais coloridas. Conseguia enxergar de novo, o meu corpo estava descongelando.
2016.

Uma pausa. Olho pela janela, cinza. Hoje é, de novo, um domingo frio e chuvoso em São Paulo. Música clássica toca na cozinha, enquanto as panelas fazem barulho. As crianças brincam na sala e eu aqui, mais uma vez, revisitanto a morte. Penso nessa lógica tão própria e maluca do universo e de como sua matemática parece perfeita em alguns momentos, daquele jeito desconcertantemente óbvio, quando eu olho para trás.

Lá fora, frio, aqui dentro, quente.

quinta-feira, 27 de outubro de 2016

I Love You...Aishiteru...Je t'aime...Te Quiero...Ich liebe dich...capitou o que eu te disse? Será?

Vivemos num mundo cada vez mais globalizado, multicultural, diferente e igual ao mesmo tempo.
Somos cidadãos do mundo, e isso é incontestável.

E este mundo ultra conectado me traz tanto encantamento quanto novas reflexões. Digo novas por que, de uma certa forma, acabo me deparando com situações tão novas que de vez em quando, como agora, me deixo envolver tanto por uma reflexão que preciso da ajuda do papel para organizar a meu pensamento.

Eu participo de grupos de WhatsApp, Facebook, Snapchat, Instagram, Twitter e, todas as mídias sociais que promovem uma enxurrada de interações, muitas vezes tenho a sensação de que, com algumas pessoas, tenho mais intimidade no ambiente virtual, do que quando nos encontramos pessoalmente.

Foi dessa percepção que comecei a notar uma coisa específica. Vocês já repararam que algumas pessoas fazem mais uso de palavras estrangeiras do que palavras de suas línguas nativas quando querem manifestar amor?

Será que quando essas pessoas falam: I love you, ou respondem um me too ao receberem um Eu te amo, elas realmente querem falar isso? Ou, quando se desculpam com um sorry... Agradecem com um thanks... Sério?! Será que as pessoas, realmente, conectaram os seus sentimentos a essas palavras? Like, they really mean it? (risos, desculpem-me, não consegui evitar!)

O que será que as impedem de iniciar, evoluir, concluir ou responder a uma outra pessoa em suas línguas de domínio? Naquela língua que lhe é natural e confortável?

Fico pensando ... Será que esse tipo de interação é um diálogo? As vezes, para mim, tem "cara" de monólogo, outras vezes de defesa ... Like (risos!) "hummm, respondo assim só para não deixar alguém sem resposta". Quem sabe pode ser um chiste? Sarcasmo também vale? E indiferença?

Não me lembro de quem é essa frase, ou se ela é um dito popular: 'só conseguimos expressar amor e ódio na nossa língua materna'. Concordo com ela! Acredito que é difícil conectarmos nossa mente, nosso coração e nossa ação (falar) de forma natural, numa língua que não é a da nossa naturalidade.

E quando digo naturalidade, isso não significa necessariamente que será a língua do lugar do qual eu sou natural, você sabe, é muito além disso. Mas sim, da língua utilizada para me formar como sujeito. Da língua utilizada para compor a linguagem que me constituiu, que me deu origem.

Gosto, da construção que Émille Benveniste defende na Teoria da Enunciação: "É na linguagem e pela linguagem que o homem se constitui como sujeito".

A dúvida ainda me acompanha: como dois sujeitos podem dialogar, sobre temas como o amor, por exemplo, utilizando uma linguagem que não lhe é natural, que não fez parte da sua constituição?

A ideia aqui não é procurar respostas ... ou entrar no campo binário - minado - do certo ou errado. E sim provocar uma reflexão: quando você utiliza uma outra língua, que não a sua materna, para comunicar algo, o que te levou a fazer essa escolha? Sejamos sinceros!

A nossa espontaneidade é diretamente proporcional ao nosso estado de conforto. Como ser espontâneo quando estamos fora deste lugar?

Quero terminar com um pensamento muito interessante do filósofo Jean-Jacques Rousseau e com um convite a pensar sobre ele e sobre toda essa reflexão que fizemos juntos até aqui:

"Não foi a fome nem a sede, mas o amor, o ódio
a piedade, a cólera que lhes arrancaram
as primeiras vozes"



*Belíssimo grafitte do artista, Bansky.

sábado, 30 de abril de 2016

A história produzida num curso de histórias!

 

Eu sou fascinada por histórias, por contar, por ouvir, por algumas vezes me arriscar a criar ... sou fascinada como as histórias tem a capacidade de se deixar degustar, com todos os sabores e coberturas possíveis, como um presente, como uma verdadeira obra de arte que se deixa ser experiementada sem moderação.

Dediquei os meus dois últimos dias das férias a um curso delicioso: "Contar históras, alimentar o humano", lindamente ministrado pela Andi Rubinstein e pela Melanie Guerra, no Instituto de Desenvolvimento Waldorf.

Além de alimentar minha alma com uma história contada pela Andi, uma verdadeira contadora de histórias, daquelas que fazem a gente viajar e o tempo se perder, tive o prazer de recordar, remontar e recontar uma história e memórias próprias e de ouvir, me envolver e me vincular a histórias de outras pessoas mas, que de uma forma ou outra agora também vivem em mim.

E o trabalho foi árduo, difícil mas, igualmente prazeroso. Sem mais delongas, divido com vocês a história que criei.

***************** As pedras & o Caminho *****************
 
 
Era uma vez, uma moça que era bem casada e feliz.
Vivia com seu belo marido e suas duas filhas numa casa replete de árvores, flores e onde o cheiro de pinheiro adentrava pelas portas e janelas o ano inteiro.
 
Quando de repente, na noite mais estrelada do ano, naquela onde se comemora o nascimento do último rei que habitou esse mundo, a notícia da morte súbita da sua mãe lhe assolou com uma tristeza profunda e todo aquele colorido antes por ela vivido, se tornou pesar e lágrimas.
 
A jovem moça tentava levar sua vida, retomando suas atividades, daqui e dali procurava entender tudo que aconteceu.
 
Por que? Se perguntava mas, a resposta não encontrava.
 
Então, decidida, resolveu fazer um antigo caminho, por muitos já caminhado, até mesmo por São Tiago.
 
Foi um ano de preparo...
 
Primeiro dilema ... com quem ficariam as pequenas? A sogra e sua irmã logo se prontificaram! Mas não pensem que foi fácil! A jovem moça gostava de tudo do seu jeito, deixar suas filhas, por vinte longos dias, exigia muito desapego.
 
E o corpo então? Sedento e muito lento, com muito exercício e sacrifício logo foi tomando viço e em poucos meses estava pronto.
 
Seguindo uma tradição muito antiga, cinco pedras do seu jardim escolheu para levar consigo. Cada uma representava algo do seu passado, com cada um dos membros da sua família, que precisava ser perdoado. Dizem que quem leva essas pedras pro caminho e deposita na Cruz de Ferro tem o perdão dos pecados e que tudo de errado, tudo que precisa ser perdoado é nesse momento realizado.
 
Com pedras, mochila, bicicleta, marido e dois amigos ao seu lado, rumaram a França onde o caminho começa.
 
Já no primeiro dia, por destino ou pelo que lhe acredite, uma pedra bem pequenininha lhe atravessou o caminho e ela, que não estava no caminho a caminhar, pelo barranco desceu sem parar. Ó vida, pensou! Que fiz para merecer essa amargura? Será que levantar consigo? Será que uma pedra há de me tirar do caminho?
 
O barranco era cheinho de espinhos que vinham de pés de amoras então, além de espinhada, a moça ficou toda perfumada, com aquele cheirinho de amora que não saia mais de jeito nenhum!
 
Tratou de tirar os espinhos e seguir o caminho ...
 
Pedalou, pedalou, pedalou
Conversou, conversou, conversou
 
Até um furacão, em plena primavera, essa moça pegou em Compostela.
 
Mais uma ladeira ... só mais um pouquinho de força e lá estava a Cruz de Ferro. Quase não se via, de tão pequeninha e por causa da neblina que a encobria naquela manhã fria. Jogou suas pedras e rezou. Pediu de joelhos que qualquer mal que tivesse feito, fosse perdoado e assim desfeito.
 
Nesse dia, dormiu que nem uma pedra, de cansaço e de alívio.
 
Na manhã seguinte, nem podia acreditar quando viu o sol raiar. Não tinha mais chuva nem neblina nem sinal de furacão. E o caminho até Santiago agora era só reta ou descida, riacho e verde. Não tinha mais o peso das suas pedras e as pedras do caminho, conseguia perceber com adianto.
 
Ouvia o som dos passáros e da floresta, o cheiro doce e fresco do orvalho que tocava as plantas...sentia tudo...estava lá hora essa!
 
E assim a Santiago chegou e ao seu próprio caminho retornou.
 
*****************F I M*****************