sábado, 8 de julho de 2017

Feliz Gurupurnima: uma Ode aos Gurus que já cruzaram e àqueles que cruzarão o meu caminho!

Quando eu tinha 13 anos, estava com a minha mãe e os meus irmãos num shopping a céu aberto em Salvador, que se chamava Aeroclube. Estava com muita dor de cabeça e depois de tanto andar, só queria ir para casa e dormir; Vontade diferente do resto da trupe que ainda tinha muita coisa interessante para ver e muita energia para queimar...entre um corredor e outro me deparei, mais uma vez, com uma loja de produtos orientais. Essas lojas tinham um poder de atração sobre os meus olhos. O Oriente sempre dançou pra mim, uma dança linda e envolvente, que me hipnotizava. Aquelas Deusas e Deuses...aquele elefante gordinho, com uma carinha simpática...aquele cheiro maravilhoso de incenso e suas músicas, sempre com um sininho a tinlintar ao fundo, tinham sobre mim o mesmo efeito da flauta mágica sobre os ratinhos, eternizada no conto de Emanuel Schikaneder.

Disse a minha mãe que a esperaria sentada no banquinho, que ficava estrategicamente posicionado na frente da loja, com uma vitrine colorida, recheada de livros. Sentei ali por alguns minutos, até que um livro de capa meio alaranjada "piscou" para mim e levantei pra vê-lo. Era o livro tibetano do viver e do morrer. Decidi entrar na loja e folhear um pouco o livro, tinha tempo e precisava de silêncio.

A vendedora logo veio em minha direção e perguntou o que havia comigo, segundo ela, minha cara não estava nada boa. Lhe contei sobre a dor de cabeça e ela me perguntou se podia me dar um pózinho "que cura tudo". Eu disse que sim e ela abriu uma caixinha cor de cobre bem pequena, que tinha um pó acinzentado com um cheiro maravilhoso. Pediu que eu abrisse a boca, jogou uma pitada e me convidou a ir à sobreloja onde me ensinaria a meditar por alguns minutos, garantindo que depois disso eu estaria ótima novamente. 


Eu, com 13 anos, me deixei conduzir - afinal, não era diferente dos ratos... - me sentia parte daquilo, era um reencontro. Ela me ensinou a respirar e pediu que ficasse ali por alguns minutos...não me lembro quanto tempo se passou, sei que fiquei imersa naquela respiração e que depois ouvi uma voz me chamando, era a vendedora. Descemos e ela me perguntou como estava a dor de cabeça que, inacreditavelmente, havia se dissipado. Curiosa lhe perguntei o que era aquele pó, ela me disse um nome esquisito (hoje sei que era vibuthi) e que seu Guru Satya Sai Baba lhe dera um pouco quando foi a Índia. Eu fiquei estarrecida, com  a história e com a figura peculiar do Guru da vendedora, que me explicou que Guru é um mestre que nos ajuda a fazer o caminho de volta a Deus. E que o seu Guru, Sai Baba, era um Sat Guru, um mestre iluminado.



Eu agradeci e sai da loja, minha mãe e meus irmãos já estavam lá fora exaustos e prontos para irem para casa.
Essa experiência me marcou profundamente, ela foi como uma chave que destravou um baú escondido lá no fundo do armário....

8 anos se passaram...a Yoga já fazia parte da minha rotina. Uma Yoga física, estética que conheci através de uma escola De Rose que ficava próxima à IBM e que foi o meu destino, 3 vezes por semana, por 5 anos. Onde, inclusive, cursei 2 dois 3 anos de curso de formação de instrutores de Yoga, quando, a vontade de ser mãe começou a bater muito forte.

Era janeiro de 2009 e eu estava na casa da Karin, minha cunhada, onde festejávamos mais um mês de vida do Frederico. Ela me deu de presente de aniversário um livro, A Autobiografia de um Iogue, de Paramahansa Yogananda, com uma dedicatória linda. O livro trouxe junto com ele um convite para conhecer uma outra face do Yoga, que não era mais da estética do corpo, mas sim, da estética da Alma.


E eu me apaixonei pelo Yogananda! Devorei o livro com uma fome que nem sabia que tinha. Depois do livro vieram as lições da Self-Realization Fellowship e uma tentativa de praticar aquelas lições e métodos de meditação, que faziam acender um sol dentro do meu coração e da minha mente.

( Foi assim que a Gabi e a Clarinha foram batizadas na Self e foi a partir disso que eu casei no religioso, também na Self, numa cerimônia em que o matrimônio é descrito como o compromisso de evolução espiritual que duas pessoas fazem uma com a outra.)

A yoga física que praticava perdeu o sentido quase que imediatamente...tinha que procurar outro lugar, outra prática, aquela já não fazia sentido, nos desconectamos. 

Uma casinha pequena, grudada no prédio que eu morava era uma escola de Yoga. A moça da recepção me disse que eu iria adorar as aulas do professor Brahmananda Das, que conduzia aulas de Iyengar. Ela tinha razão! Uma Yoga vigorosa, como eu gosto!! Amava as práticas, e ainda do lado de casa? Perfeito!

Agora já estávamos em Julho...numa aula dedicada à abrir o Anahata Chakra, o Chakra do coração, o Brahma olha para mim e diz: "abre esse seu coração Hellene, se prepara para receber, vamos, abre mais" ... e eu, comecei a chorar! Ainda não tinha contato para ele, mas estava grávida da minha primeira filha! Todos na aula ficaram super felizes!!!

Também lembro muito da reação da Karin quando contei para ela! Liguei e disse: ei, você vai ser tia! A reação imediata dela foi: "Lou, isso foi uma benção do Guru". Eu, tentava engravidar a um ano.

O Brahma me acompanhou como professor de Yoga durante toda a gestação e, também, durante toda minha licença maternidade, quando ele me dava aulas em casa, e embalava a Gabi no colo, cantarolando os mantras que saiam do seu celular. E foi assim na gestação da Clara, e também quando tive uma baita depressão pós parto depois que a Clara nasceu. 2 vezes por semana era a Yoga que me aprumava, seja ela ao fazer um asana ou ao lermos juntos uma estrofe do Gita - que o Brahma me deu de presente quando a Clara nasceu - fazendo aqueles versos entrarem no mais profundo do meu ser.

Foi ele, também, que me apresentou a Bhaktivedanta Swami Prabhupada e que meu deu um Japamala de Tulasi banhado no Rio Ganges. Praticamos juntos por muitos anos...o que conheço de Bhakti Yoga, conheci pelo olhar amoroso dele.

Era início de 2015 agora, praticávamos junto no atelier da querida Ana Pasternak e minha mãe tinha acabado de morrer. E foi junto do Brahma e da Ana que pratiquei muita Yoga em silêncio, com mantras lindos que faziam lágrimas escorrerem sobre meu rosto.

Alguns meses antes da morte da minha mãe, que se foi na noite de natal de 2014, tive um sonho. Sonhei que estava num lugar distante, com pessoas que não me eram familiares, todas sentadas "com perna de índio" de frente para uma mulher vestida de branco. Ela tinha uma pele negra e era muito simpática. Num determinado momento do sonho ela me chama e pede que a acompanhe para fora da sala...saímos e estávamos num pasto verde, imenso. Não tinha nada ao redor além de um grande poço. Ela me pediu que jogasse o balde. Assim o fiz. Depois me pediu que içasse. O que fiz com muito, muito esforço pois o balde era muito pesado. Quando vi o que tinha no balde fique irada! Perguntava a Sra vestida de branco o que deu nela para me mostrar aquilo?!? Quem era Ela que me mostrava aquilo? Ela, delicadamente, repousou suas mãos sobre meus ombros e disse que, um dia, iríamos ouvir muito uma sobre a outra. Acordei de supetão, as 3 da manhã, e não consegui dormir mais.

Na manhã seguinte, na IBM, ao folhear uma revista, vi a mesma senhora de branco com quem tinha sonhado. Se chama Amma, e era reconhecida na Índia como uma Sat Guru, a Guru do abraço.




Meu aniversário de 33 anos, janeiro de 2015, uma tristeza avassaladora tomava conta do meu coração. Naquele dia 17 de janeiro fui dormir cedo...não era uma boa companhia nem para mim, quem dirá para outras pessoas. Novamente sonhei com a Amma, que Ela me abraçava e sorria para mim, um sorriso que dissipava tudo. Tudo! Alegria, tristeza, tudo! Éramos só nós duas, num abraço profundo.
Depois desse sonho eu virei uma panela com água fervente...não conseguia entender o que eu sentia, só queria conhecer mais sobre essa Sra Amma e entender porquê sonhava com ela.

Perguntei à Karin e ela disse: Eu acho que ela é sua Guru.
Falei com o Brahma, que me disse a mesma coisa.

A Amma também me conduziu com sua flauta mágica...encontrar com Ela pessoalmente foi um momento indescritível, nenhuma palavra do meu repertório dá conta de descrever este momento.

Foi através da Amma que me aprofundei um pouquinho mais na meditação e me identifiquei com uma sanga (grupo)! Ah Amma! E que presente maior do que esta sanga eu poderia pedir?! Na verdade nem pedir eu poderia pois não imaginava que isso existia!

Foi durante um Satsang que eu experimentei, uma vez, um estado de meditação que nunca imaginei alcançar...através do grupo de música que entoava um mantra que me levou para dentro de mim, profunda e amorosamente.

Foi nesta sanga que encontrei irmãs de Alma que me entendem só com um olhar, com quem tenho conversas profundas e com quem dou risadas gostosas! Um amor tão tão profundo, que faz meu coração palpitar alto e forte enquanto eu escrevo estas linhas.

Através desta sanga conheci mais de Yoga, mais de servir ao próximo e mais de amor.









"Quando você tem um Guru é como viajar em um ônibus expresso. Você pode chegar mais rápido ao seu destino". Amma












Pratiquei mais Yoga com a Karini, minha eterna "prof Ammada", com aulas mais do que gostosas na companhia da Ana e de Kaliane. Fiz curso de Yoga restaurativo com a minha mais do que Ammada irmã Raquel e, foi através desta sanga que conheci a Punya, minha querida atual professora de Yoga.

Precisava escrever tudo isso para dizer que hoje é Guru Purnima, a noite da Lua que celebramos todos os nossos Gurus, todos os mestres que passaram pela nossa vida! E esse texto é uma Ode a todos que me conduziram até aqui! O meu muito muito obrigada!

E este Gurupurnima, para mim, ainda é mais especial! Esta sendo comemorado em família, aqui na Argentina, que em breve será o nosso lar. Eu não poderia deixar de agradecer à Rudolf, a Gabi e a Clara que também são meu e minhas Gurus e que nos próximos anos terão, ainda mais, minha dedicação.

Desejo, à todos vocês, um lindo Gurupurnima!!! Seja você da Yoga ou não, todos temos Mestres, muito Mestres, ao logo das nossas vidas. Que você possa dedicar alguns pensamentos de gratidão, nessa lua tão auspisiosa, aos seus.

Enquanto escrevia este texto, um mantra não saia da minha cabeça! Divido ele com vocês .... na minha mente ele soa com as vozes melodiosas e amorosas como se eu estivesse num Satsang da Amma. Jay Ma!






Om
Guru Brahma Guru Vishnu
Guru devo Maheshvarah
Guru sakshat param Brahma
Tasmai shri gurave namaha
(Guru Mantra)

quarta-feira, 19 de abril de 2017

Uma valsa com o tempo

Waltz - Leonid Afremov
Estou sentada na mesa do meu escritório, pela janela à minha frente avisto uma árvore frondosa, com os seus galhos remexendo para lá e para cá, dançando no rítimo do vento frio de uma tarde ensolarada de outono.

Tento escrever o que foi a experiência que eu e mais 30 pessoas vivemos nestes últimos três dias ... num encontro, intenso, de conversas sobre a morte. O barulho ensurdecedor das palavras dentro de mim se depara com a barreira do silêncio que faço. Não sou capaz de colocar os pensamentos em palavras. Volto a olhar a janela.

Da dança entre os galhos e o vento, observo uma folha que cai, ainda existe nela uma dança e ela, inteiramente presente no seu processo de morte baila, alegremente, até tocar o chão.

Meu pensamento se desloca, rapidamente, para o tempo, para as
histórias e as pequenas e grandes mortes do dia-a-dia. E na música frenética dos meus pensamentos resolvo fechar os meus olhos por alguns instantes, na esperança que eles apaguem a luz da minha mente e coloque os pensamentos para dormir.

Me sinto como um grande salão e em uma inspiração profunda as janelas se abrem, uma brisa suave entra, a atmosfera se serena, já não existe barulho.
Um dançarino adentra ao salão. Numa vitrola antiga coloca um vinil. O tocar da agulha no disco preto faz ecoar um som que me traz a memória as boas músicas da infância...é uma valsa. Com passos calmos e firmes vejo-o caminhar em minha direção e, ao mesmo tempo que sua mão direita me convida para a dança, ouço o iniciar da cantoria “um dia ele chegou tão diferente, do seu jeito de sempre chegar...”

Não apresenta sua face, mas quando a sua mão esquerda se acomoda na minha cintura, delicadamente sussura seu nome em meu ouvido: Eu sou o tempo.

Eu e a música paralisamos sincronicamente. Nos olhamos. Ele dum jeito muito mais quente do que sempre costumava olhar. Sustentamos um o olhar do outro, nos reconhecíamos. Eu n’Ele, Ele, em mim. Um avalanche de sentimendos me inundou, ele apertou a minha mão um pouco mais forte. Primeiro pedi licença ao medo e não maldisse a vida tanto quanto era meu jeito de sempre falar e fechei os olhos.

Dentro de mim começei a descer as escadas das minhas dúvidas, da raiva, da tristeza, dos meus julgamentos muitas vezes cruéis sobre mim e sobre os outros...meu coração dispara. Estou prestes a reencontrar algo precisoso. Abro uma porta velha com fechaduras enferrujadas. Olho e me vejo, aquela eu de quem tanto gosto e não a deixo só num canto; pra seu grande espanto convido-a para rodar.

Então ela se fez bonita como há muito tempo não queria ousar, com seu vestido decotado cheirando a guardado de tanto esperar subimos as escadas correndo. Quando abro os olhos é através dela que o vejo de novo e tão rápido quando um pensamento passo ser uma observadora de mim mesma. Daquela cena. Daquela eu de quem tanto gosto. Sorrio.

“Depois os dois deram-se os braços como há muito tempo não se usava dar, e cheios de ternura e graça foram para a praça e começaram a se abraçar. E ali dançaram tanta dança que a vizinhança toda despertou, e foi tanta felicidade que toda a cidade se iluminou. E foram tantos beijos loucos
tantos gritos roucos como não se ouvia mais. Que o mundo compreendeu...”

Como uma linda aquarela a cena começa a se dissipar. Inspiro profundamente e abro os olhos. Olho pela janela e lá fora já é noite, mas é cheiro de dia raiando que respiro. O dia amanheceu em paz.

*inpirado na Valsinha de Chico Buarque de Holanda.

segunda-feira, 12 de dezembro de 2016

O gatinho da minha rua e seu Maha Savasana

O oriente penetrou em mim quando eu ainda era muito jovem; parecia que tudo o que vinha de lá produzia um efeito quase magnético sobre minha atenção e sobre o meu coração.

Sempre encontrei pessoas, livros e músicas que, constantemente, me faziam o convite a olhar para o oriente. E os convites eram tão diversos, quanto a diversidade que existe por lá. Mas, foi quando passei a habitar terras paulistanas que fui convidada a experimentar o Yoga. O nosso primeiro encontro tinha pitadas de vigor e juventude, era o corpo que encenava o papel principal da história.

Aos poucos me interessei pela multiplicidade e abrangência - quase infinita - dessa palavrinha de quatro letras e descobri, que o corpo encena na filosofia do Yoga, talvez, o mais insignificante dos papéis.

'É preciso perceber, sentir e permanecer em posturas de Yoga onde a cabeça e o coração estejam no mesmo nível" dizia e repetia (como um Mantra) a Raquel durante um curso que fiz, de Yoga Restaurativo. Trocando em miúdos e sendo bem gerenalista, é um linha que tem como premissa posturas passivas, de conforto extremo e que proporcionem ao aluno renovação e regeneração em níveis profundos de relaxamento.

Ufa! Tudo que eu precisava neste final de ano.

A principal postura do Yoga restaurativo é o Savasana (Sav - Cadáver / Asana - Sentar).  O workshop durou uma noite e dois dias e o convite era, exatamente o que você deve estar pensando agora, experimentar a restauração profunda que a postura do cadáver {Savasana} causa no corpo, na mente e no coração. Foi intenso. Pronfundo. Íntimo.

Finalizei o curso determinada a fazer Savasana todos os dias.

(fim do primeiro ato)

Há pouco mais de seis meses dois gatos se apaixonaram. Ela, cinza com olhos de um verde quase amarelo. Ele, cor de caramelo, jeito despojado e olhos marotos.

Do amor deles sugiram 3 gatinhos. Não sabemos - ainda - quantos são machos ou fêmeas mas, a Clara, acabou batizando de: Clara um, Clara dois e Clara caçula.

Um era pretinho de olhos verdes quase amarelos como a sua mãe. Os outros dois eram branquinhos e tinham as extremidades cinza, com sua mãe e os olhos azuis como o céu e marotos como os do seu pai.

Eles nasceram poucos metros distantes da porta da nossa casa e, alegram todas as nossas manhãs, quando veem o carro saindo da rua e se escondem nos dois grandes canos da casa do vizinho, o que leva as meninas a gragalhadas imensas e mãos apertando as bochechas em gesto de fofura extrema.

Qualquer hora do dia que saíssemos de casa encontrávamos aqueles 3 gatinhos saltitantes e sapecas rolando na relva fresca e úmida da nossa rua de paralelepípedos. Por quase dois meses acompanhamos o crescimento deles e as eternas brincadeiras de escode-esconde que eles operavam todas as vezes que saíamos de casa.

O que era graça para as meninas, para nós adultos cheios de medos, era motivo de preocupação. Será que ninguém vai adotar esses gatinhos? Depois descobrimos que isso nunca seria possível por que eles são filhos dos gatos de um dos nossos vizinhos da rua de cima. Será que não dá para ele colocar esses gatinhos dentro de casa? Algum dia ainda vai acontecer uma tragédia!

(fim do segundo ato)

Segunda-feira, dia seguinte aos dois dias e uma noite que me regenerei no curso de Yogo restaurativo, que havia me proporcionado uma das melhores noites de sono dos últimos tempos, acordo feliz e saltitante.

7:15 da manhã. Saio para levar a Clara na escola, vejo um gatinho - curiosamente sem sua mãe ou seus irmãos como de costume - deitado na rua, dormindo serenamente, restaurativamente, com sua cabeça entre as patinhas, na mais gostosa e confortável das posições.

Não sei por que mas, desta vez não chamo a atenção da Cla para vê-lo, senti um frio quando o vi de longe ... passo com o carro perto dele e ele não se mexe. Meu corpo gela, fico triste.

Ligo para o meu marido e pergunto se ele o tinha visto. Ele diz que sim e setencia: deve ter morrido de frio. Apesar de já ser primavera, estamos enfrentando tempos frios na terra da garoa.

Deixo a Clara na escola e volto, preciso cuidar disso antes que as meninas voltem da escola. Era a única coisa que pensava. Entro em casa e pego dois sacos plásticos pequenos, um grande, e um saco de algodão bem macio...subo a ladeira de paralelepípedos da minha rua ainda com a vegetação toda coberta com pequenas gotas de chuva e um cheiro maravilhoso de terra molhada.

Agacho na frente do gatinho, seus olhos azuis ainda estavam um pouco entre abertos. Parecia relaxado, feliz. Um verdadeiro Maha Savasana.

Tenho um Déjà vu. Quando a minha mãe se foi não tive coragem de vê-la morta, não quis tocar o seu corpo inerte, não tive coragem.

Agora estávamos lá, eu e o gatinho - nem imagino qual das "Claras" ele possa ser, não quero pensar nisso - somos só nós dois e, ninguém mais pode fazer isso por mim. Coloco os dois sacos pequenos nas minhas mãos, aliso delicadamente sua pequena cabeça, é verdade, ele se foi.

Coloco as minhas mãos em prece, faço uma oração. Peço licença para pegar neste corpinho que um dia uma alma de gato habitou. Pego aquele corpo pequenino, frio e pesado e coloco delicadamente dentro do saco de algodão macio, depois no saco plástico e me despeço.

Na rua não passa uma viva-alma sequer, só tem vento, canto de pássaro e cheiro de terra molhada. Sinto amor, compaixão, por mim e por ele.

Meu coração está acelerado...entro na minha casa, agarro a Mavis - a nossa gata - dou um monte de beijos nela e agradeço, por tudo.

"Não existem vidas comuns, apenas olhares domesticados" Eliane Brum

(Fim)

*Não consegui achar o autor dessa foto maravilhosa se um gatinho dormindo no colo de um Budha. Foto captada Printerest, se você souber me avisa que coloco os créditos.

quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

Sobre a Morte, o Natal e a Gratidão


Hoje é o dia que se inicia o calendário do Advento, faltam 24 dias para o Natal. Desde 2014 os Natais para mim são diferentes, as emoções felicidade, tristeza, alegria e gratidão dançam abraçadas dentro do meu corpo.

Resolvi fazer deste primeiro dia de Advento um dia de gratidão às forças supremas do Universo. Este texto é a materialização disso. Ele nasceu durante o lindo curso Como se encontrar na escrita, da Ana Holanda, pela The School of Life.

Ana, você e grupo deste curso morarão no meu coração, para sempre! Obrigada!

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Era julho de 2013, um domingo frio em São Paulo e eu e Rudolf, meu companheiro nos últimos 12 anos, resolvemos deixar nossas filhas Gabriela e Ana Clara, na época com três e um ano sob os cuidados da avó paterna para irmos a um sermão da The School of Life sobre o arrependimento e a morte.

Naquele domingo choramos e agradeçemos. Saímos de lá, duas horas depois, em completo silêncio, pelos quase 12 kilômetros que separam a Rua Augusta da nossa casa. Para mim, era a primeira vez que o assunto morte era ouvido e sentido numa situação onde ela, a morte, não estava dolorosamente presente, de corpo e alma. Mal sabia que iria visitar e relembrar essas duas horas, em breve.

Alguns meses se passaram e, tratei de começar, antes do fim, a colocar uma das minhas resoluções de fim de ano em andamento e, mais uma vez, vi-me numa situação e num lugar onde o convite a pensar sobre a morte era feito. 23, 26 e 27 de dezembro, Monja Coen, o Budismo em três lições. Terceiro ato: sobre o nada e o vazio, os movimentos da vida. Só conseguia sentir, as palavras me faltavam e o silêncio me dominou novamente.

24 de Dezembro de 2014. São Paulo acordou com o típico dia brilhante de verão. Quente, o sol deixava as árvores e as flores ainda mais bonitas e coloridas. Eu amo Natal, sempre amei e este seria especial: o primeiro na nossa casa! As meninas estavam elétricas, eu e Rudolf não víamos a hora da noite chegar, os preparativos estavam a mil e a felicidade reinava, absoluta.

Estou sentada no chão da cozinha terminando os últimos arranjos de flores, dali a pouco, em alguns minutos, a família aqui de São Paulo começaria a chegar. O telefone toca, era minha irmã de Salvador, atendo com a mais eufórica das vozes. Ela, séria, taciturna: a mamãe passou mal, estamos no hospital. Meu corpo gela, tenho a sensação de que ele pressente algo. Ela conta os detalhes do que aconteceu, diz que a mamãe esta sendo atendida e que ligaria quando tivesse alguma novidade.
Desligo o telefone e sinto como se o tempo tivesse congelado e percebo que os meus olhos já não veem as árvores e as flores com o colorido de antes. Atravesso o corredor da minha casa e aviso a Rudolf. Ele tenta me acalmar mas parece que a minha alma já sabia o que estava por vir.

Subo para o meu quarto e, diante do meu altar, eu rezo. Peço pela minha mãe e por mim. Meu coração acelera e depois dos longos minutos que passei em oração, resolvo tomar um banho para acalmar a mente. Em seguida o telefone toca. Olho no visor, é a minha irmã. Por alguns minutos eu penso que não quero atender aquela ligação, ela tinha um cheiro diferente.

“Os médicos disseram que ela não resistiu”.

Meu corpo gela. Não sinto o chão sob os meus pés. Choro. Não acredito e pergunto se aquilo realmente estava acontecendo, se era verdade ... Para todas as perguntas de negação, encontrava o sim como resposta.

Algumas horas mais tarde já estava no avião a caminho de Salvador. O silêncio me dominava, sentia-me anestesiada por dentro. E assim passei por todos os rituais de despedida. Como filha mais velha recebi a nomeação – digo nomeação porque não pedi nem me voluntariei – de dizer algumas palavras no momento final de despedida. Sentia calafrios, meu coração estar sendo esmagado. O barulho dentro de mim era imenso. Mas da pele para fora, as pessoas só me viam entre lágrimas e soluços recitar o Soneto de fidelidade, de Vinícius de Moraes, a única coisa que consegui dizer naquele momento, não conseguia falar de mim e do que eu sentia com as minhas própias palavras.
E assim, quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama

Eu possa me dizer do amor (que tive):
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure.


Entre os abraços e beijos que recebi no final, ouvi de alguém: “Agora é vida que segue”. E ela, de fato, segue. O meu corpo acordava da anestesia a cada dia que passava. Aos poucos já conseguia falar com os amigos sobre o que sentia e foi numa dessas conversas, daquelas em que eu parecia o narrador de uma peça enquanto falava, que me dei conta do último ano e como, de certa forma, aquelas escolhas que eu fiz de ouvir sobre a morte foram uma homeopatia em doses antecipadas.
Olhei pela janela do restaurante que almoçávamos, ainda era verão. O Sol, brilhante e quente, deixava as árvores e as flores ainda mais coloridas. Conseguia enxergar de novo, o meu corpo estava descongelando.
2016.

Uma pausa. Olho pela janela, cinza. Hoje é, de novo, um domingo frio e chuvoso em São Paulo. Música clássica toca na cozinha, enquanto as panelas fazem barulho. As crianças brincam na sala e eu aqui, mais uma vez, revisitanto a morte. Penso nessa lógica tão própria e maluca do universo e de como sua matemática parece perfeita em alguns momentos, daquele jeito desconcertantemente óbvio, quando eu olho para trás.

Lá fora, frio, aqui dentro, quente.

quinta-feira, 27 de outubro de 2016

I Love You...Aishiteru...Je t'aime...Te Quiero...Ich liebe dich...capitou o que eu te disse? Será?

Vivemos num mundo cada vez mais globalizado, multicultural, diferente e igual ao mesmo tempo.
Somos cidadãos do mundo, e isso é incontestável.

E este mundo ultra conectado me traz tanto encantamento quanto novas reflexões. Digo novas por que, de uma certa forma, acabo me deparando com situações tão novas que de vez em quando, como agora, me deixo envolver tanto por uma reflexão que preciso da ajuda do papel para organizar a meu pensamento.

Eu participo de grupos de WhatsApp, Facebook, Snapchat, Instagram, Twitter e, todas as mídias sociais que promovem uma enxurrada de interações, muitas vezes tenho a sensação de que, com algumas pessoas, tenho mais intimidade no ambiente virtual, do que quando nos encontramos pessoalmente.

Foi dessa percepção que comecei a notar uma coisa específica. Vocês já repararam que algumas pessoas fazem mais uso de palavras estrangeiras do que palavras de suas línguas nativas quando querem manifestar amor?

Será que quando essas pessoas falam: I love you, ou respondem um me too ao receberem um Eu te amo, elas realmente querem falar isso? Ou, quando se desculpam com um sorry... Agradecem com um thanks... Sério?! Será que as pessoas, realmente, conectaram os seus sentimentos a essas palavras? Like, they really mean it? (risos, desculpem-me, não consegui evitar!)

O que será que as impedem de iniciar, evoluir, concluir ou responder a uma outra pessoa em suas línguas de domínio? Naquela língua que lhe é natural e confortável?

Fico pensando ... Será que esse tipo de interação é um diálogo? As vezes, para mim, tem "cara" de monólogo, outras vezes de defesa ... Like (risos!) "hummm, respondo assim só para não deixar alguém sem resposta". Quem sabe pode ser um chiste? Sarcasmo também vale? E indiferença?

Não me lembro de quem é essa frase, ou se ela é um dito popular: 'só conseguimos expressar amor e ódio na nossa língua materna'. Concordo com ela! Acredito que é difícil conectarmos nossa mente, nosso coração e nossa ação (falar) de forma natural, numa língua que não é a da nossa naturalidade.

E quando digo naturalidade, isso não significa necessariamente que será a língua do lugar do qual eu sou natural, você sabe, é muito além disso. Mas sim, da língua utilizada para me formar como sujeito. Da língua utilizada para compor a linguagem que me constituiu, que me deu origem.

Gosto, da construção que Émille Benveniste defende na Teoria da Enunciação: "É na linguagem e pela linguagem que o homem se constitui como sujeito".

A dúvida ainda me acompanha: como dois sujeitos podem dialogar, sobre temas como o amor, por exemplo, utilizando uma linguagem que não lhe é natural, que não fez parte da sua constituição?

A ideia aqui não é procurar respostas ... ou entrar no campo binário - minado - do certo ou errado. E sim provocar uma reflexão: quando você utiliza uma outra língua, que não a sua materna, para comunicar algo, o que te levou a fazer essa escolha? Sejamos sinceros!

A nossa espontaneidade é diretamente proporcional ao nosso estado de conforto. Como ser espontâneo quando estamos fora deste lugar?

Quero terminar com um pensamento muito interessante do filósofo Jean-Jacques Rousseau e com um convite a pensar sobre ele e sobre toda essa reflexão que fizemos juntos até aqui:

"Não foi a fome nem a sede, mas o amor, o ódio
a piedade, a cólera que lhes arrancaram
as primeiras vozes"



*Belíssimo grafitte do artista, Bansky.